Guimarães Rosa enem ppl 2015


#1

Famigerado

Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… familhas-gerado…?

ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988

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A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque

  1. o narrador se cala, pensa e monologa, tentando assim evitar a perigosa pergunta de seu interlocutor.
  2. o sertanejo emprega um discurso cifrado, com enigmas, como se vê em “a conversa era para teias de aranhas".
  3. entre os dois homens cria-se uma comunicação impossível, decorrente de suas diferenças socioculturais.
  4. a fala do sertanejo é interrompida pelo gesto de impaciência do narrador, decidido a mudar o assunto da conversa.
    5. a palavra desconhecida adquire o poder de gerar conflito e separar as personagens em planos incomunicáveis.

Pq a 2 está errada?


#2

Oi, Sara, tudo bem? :smiley:

Vou tentar te explicar um pouco sobre a vida dele, como isso influenciou a obra e a forma como você pode olhar esse trecho a partir de então, pode ser?

Guimarães foi médico, diplomata, escritor e por ai vai. Ou seja, ele tinha uma formação acadêmica muito boa. Ele foi médico em uma cidade do interior de Minas e teve contato com a população sertaneja. Esse contato enriquecedor refletiu nas obras deles. Muito de suas histórias possui um lado verídico misturado com a fantasia (maravilhosa!) por ele criada.

Em uma palestra que tive com professores da USP sobre Guimarães, eles comentaram que uma das coisas que mais o encantava era o vocabulário do sertanejo e como esse sertanejo também reagia ao seu [do Guimarães] vocabulário. Além das histórias, lendas e etc.

Nesse trecho, você nota que a linguagem do sertanejo que é diferente - para nós - é, na verdade, assim por natureza e não enigmática propositalmente. Perceba que o sertanejo não entendeu o significado da palavra famigerado. E, como - possivelmente - foi a primeira vez que escutou, ele não sabia como repetir. Não é um enigma, eles estava apenas tentando repetir e entender (um tanto quanto incomodado com isso)

Agora pense você: alguém chega e fala para você uma palavra desconhecida, você não ficaria intrigada? Eu ficaria hehe.

Foi o que ocorreu com o sertanejo. Afinal, ele não sabia se aquilo era uma ofensa ou um elogio. Perceba que ele ficou realmente incomodado “pensava, pensava. Cabismeditado”. Nessa parte, percebemos a presença do neologismo que é uma característica do Guimarães. Então, o que pode ser enigmático, é a linguagem do Guimarães e o universo de sua obra, mas o sertanejo estava sendo apenas ele (o que pode ser enigmático para quem escuta). Nessa hora conseguimos percebe o quanto o Brasil é uma país imenso, diferente e rico culturalmente, pois a forma como o outro fala pode até nos parecer enigmática. A parte de teia de aranhas era como o narrador via isso e como lidava com essa situação (perceba que gerou uma mau estar e ele precisava entender o sertanejo).

Não sei se você leu Vidas Secas do Graciliano, mas, para mim, é um livro que mostra - além de inúmeras outras coisas - esse poder das palavras desconhecidas e, também, o silêncio, o medo que as pessoas consideradas (erroneamente) “mais simples” tem de se expressar.

Creio que, por isso, podemos invalidar a letra B e, se notar, a letra E é a que parece mais se encaixar com a situação.

Enfim, espero ter ajudado!


#3

Aii menina <3 Obrigada por essa resposta linda! Ajudou bastante! Muito interessante essa reflexão. Já li Vidas Secas ( e inclusive AMO), e agora que você falou consegui pensar nesse outro aspecto referente a dificuldade de expressão dos personagens… Acho que isso contribui e muito pro naturalismo dá obra né? Sem contar na associação forte com o meio degradante da seca… Obrigadaa Camila :heart:


#4

eu falaria “naturalidade” (na parte do discurso direto). Se você usar naturalismo, acho que pode parecer uma associação com a escola, sendo que o Graciliano é do modernismo (geração de 30) e o Guimarães também (geração de 45), ai pode confundir.

E que feliz que você leu Vidas Secas, às vezes fico medo de usar uma referência e não ser útil! Eu gosto bastante também!! Tem quem não goste, mas acho que todo mundo deveria ler hehe (olha que mandona eu). :rofl:

imagina!! Gostei muito de responder! qualquer coisa é só falar viu? :hearts::hearts:


#5

@Sara_Vasconcelos, você reconheceu esse texto em algum lugar? HAHAHAHA
lembrei de você hoje!