Não sei se entendo a canção Mortal Loucura, de José Miguel Wisnik


#1

Oi, comunidade do MS!

Um amigo, muito querido, um dia chegou na minha casa, afobado, afoito, querendo saber se eu entendia a música Mortal Loucura, interpretada lindamente pela Maria Bethânia. Veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=AtcE6IZR7MY

Eu olhei pra ele, com uma cara de espanto, porque somos os dois professores de Literatura, e pensei: quem não entenderia uma simples canção?

Sentei e ouvi, presunçosa, até empacar na primeira estrofe:

"Na oração, que desaterra a terra
Quer Deus que a quem está o cuidado dado
Pregue que a vida é emprestado estado
Mistérios mil que desenterra enterra"

E tem sido assim, sempre que escuto a canção, um abismo sem saber se entendo.

O que vocês entendem? Ouçam e me digam!
Beijo,
Profa. Camila


#2

Professora, tudo bem?
Quando vi que foi você que postou, já pensei que seria difícil, mas não tanto assim haha
Pesquisei e descobri que esse texto, originalmente, é do Gregório de Matos. Acho que sabendo quem foi o autor e contexto que ele escrevia pode ajudar um pouco (o que, no seu caso, não é problema algum, porque domina isso mais do que nós haha :rofl: )

Sobre o trecho, posso estar interpretando de maneira muito simplista, mas eu entendi assim: Na oração, que faz o homem sair da terra e entrar em contato com algo que não seja a terra (o céu, no caso), ele recebe a mensagem de Deus (seu “cuidador”) de que a vida é um estado que foi emprestado a ele e pode ser retirada facilmente (frágil, efêmera…) . Assim como a terra, em um buraco por exemplo, que pode ser retirada e colocada (talvez, também, no sentido de enterrar a pessoa). Também pensei que a terra pode assumir a relação com a natureza e a vida, sendo as pessoas metáforas para terra. Portanto, o mundo possui muita terra, assim como muitas pessoas. Tirar terra de algum lugar não faria falta, assim como tirar a vida de alguém para Deus? Será? Confuso tudo isso… assim como o Gregório HAHAHAHA

Enfim, não faço ideia se o que falei tem qualquer sentido, mas espero ter contribuído, pelo menos, com a informação sobre o autor! :blush:


#3

Camila, querida!

Que linda a sua resposta! Sim, o Gregório de Matos serve de inspiração para diversos cancionistas! Achei magnífica a sua interpretação. Com uma questão dessas no ENEM, se sairia muito bem!

Mas o que eu perguntava era sobre o que escapa da letra, da música, da canção. Queria dizer que “sinto” que algo escapa da interpretação das palavras e da própria canção. Entende?

Na verdade, era uma provocação para pensar sobre a interpretação do além da interpretação. Quando eu ouço essa música, eu me sinto desterrada. Me territorializo num verso e já estou em outro lugar no outro! E acho que isso está mais na canção do que na poesia.

Vocês nunca se sentiram assim? Sentindo que uma música toca além da letra e diz muito mais do que se pode entender?


#4

Professora, muito obrigada! Ganhei meu dia!

Entendi agora o que quis dizer e, sobre isso, já aconteceu comigo com várias músicas, mas tem uma em especial: Álibi do Djavan.
Eu não sei muito bem o que eu sentia, me tocava de uma forma e eu demorei muito tempo para entender o que aquela música significava pra mim (além da interpretação). Aliás, não sei até hoje se entendi.

Enfim, achei muito boa a provocação, pode continuar que você já tem alguém aqui apoiando! :heart:


#5

Gente, sei que cheguei muito atrasada e a conversa já tem mais de um ano… mas gostei de ler os comentários! Como canção, o poema de Gregório de Matos foi musicado pelo José Miguel Wisnik para compor o balé “Oncotô” do Grupo Corpo. Se buscarem no Youtube por Mortal Loucura, encontrarão facilmente a parte do espetáculo em que aparece essa canção. E penso ainda que a coreografia nos ajuda a entender algo mais do poema, dada a sensualidade dos movimentos, o fato de as bailarinas dançarem no chão todo o tempo (na terra?), aliás de ser um pax de deux de duas bailarinas, enfim, eu só quis contribuir mais com as perguntas do que com as respostas, que tantas vezes importam mais! Abraços